O sabor do amor duma criança...

Estive num orfanato….Meu Deus, como é possível, haver pais que abandonam, aquelas coisas lindas, fofas, meigas. Com tanto carinho para darem e com tanta falta de carinhos.
Olhava uma a uma e só me apetecia traze-las todas para casa. Perdi-me no tempo, ali não havia horas, não havia pressas, porque cada criança que peguei ao colo, foi um nascer para um mundo novo. Sentia-me na lua, brinquei com elas, como se criança fosse também, cheguei toda suja a casa, mas tinha minha alma tão limpa, tão leve, que me esqueci a importância duma roupa lavada. Mas… houve uma menina de 4 anos que não me largava, tão linda, com seus caracóis pretos e pedia-me colo a toda a hora, até que chegada a altura me perguntou: “ Vais ser minha mamã”? Meu Deus, que dor senti em minha alma, fiquei a olhar para ela com lágrimas nos olhos, sem saber como lhe explicar que não poderia ser a mamã dela. Ergui os olhos ao céu e num grito mudo perguntei a esse Deus castigador porque me fazia passar por esse momento, quando ele, melhor que ninguém, sabe que jamais a poderia levar para casa comigo. Como eu adoraria levá-la comigo, como aquela menina, mexeu com tudo o que era sentimentos, com tudo de bom e de mau que eu tenho dentro de mim. Olhei para ela, com as lágrimas a correrem pelo rosto e respondi: - Meu amor, não te vou mentir, porque tu mereces todo o amor desta vida e toda a verdade dela também, mas…. Eu não vou ser tua mamã, não posso, estou velha, em minha casa a saúde não é o pão do dia a dia, e para te ter como filha, eu teria que te dar tudo o é bom nesta vida. Olhou para mim muito seria e respondeu-me: - Tu não és velha, tu vais ser minha mamã na brincadeira, porque eu sei o que é saúde, minha mamã morreu com isso. Não aguentei mais, abracei-me a ela e baixinho com a voz cortada pelos soluços respondi-lhe – Minha filha, meu amor, tu vais ter uma mamã a sério, mas até lá…. Todas as semanas, te venho dar um beijo. Ela sorriu, que inocência, e que inteligência essa menina linda tinha. Queria uma mamã, mas a palavra saúde, fez-lhe ver que não seria eu, mas mesmo assim, abraçou-se a mim, deu-me tantos beijos que não me apetecia lavar mais o rosto para não limpar aquela ternura. Saí de lá, com o coração leve, cheio de amor, mas também revoltada com a vida. Aquelas crianças não mereciam passar por isso tudo. Agora pergunto eu, porque Deus dá nozes a quem não tem dentes?

Do Melhor
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